SONIA KASPER FAILLACE

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Estava eu “como a linda Ignez posta em sossego”, quando ouço a voz da minha filha Daniela que acabara de chegar. Ela é a mais pragmática dos meus filhos e vai sempre direto ao ponto que precisa ser resolvido. “Mãe, já arrumaste a mala?,” indagou. Mala? Hum…pensei eu. Mala lembra viagem. Para onde iria viajar? Já estava pensando para que lugar paradisíaco eu viajar. Esta mania de fazer associação de palavras e com elas voar…

“Mãe, precisamos arrumar a mala porque tu vais para o hospital fazer uma mastectomia”, continuou minha filha. Já estava novamente fazendo associações, agora por conta do meu ofício de professora de História. Mastectomia me lembrou decapitação: cabeças decapitadas em 1789, tetas decapitadas em 2009. Já estava em plena Revolução Francesa, fazendo empatia com a rainha Maria Antonieta. Ela subiu ao cadafalso onde colocaram seu jovem pescoço na guilhotina para ser decapitado. Que medo ela deve ter sentido!

Quando somos experimentados por uma adversidade, compreendemos melhor as pessoas e até os personagens históricos. Como esta rainha – que para alguns foi fraca, vaidosa e alienada – deve ter sentido medo! Também senti medo ao saber que iria perder uma mama, mas guardadas as proporções de tempo e espaço, as decapitações em 1789 matavam e as de 2009 nos devolvem a vida. Assim, eu tive volta; e a infeliz rainha não.

Como é bom viver em 2009! Ao invés de carrascos e guilhotinas, temos médicos competentes e modernos instrumentos cirúrgicos que, quando necessário, “decapitam” com precisão a mama afetada. Esse procedimento impede que as células alteradas entrem na circulação sanguínea e ocasionem a metástase – que, aí sim, resultaria em perda de vida.

Dois meses após me submeter a tal procedimento, eu estava restabelecida e curada. Mas algumas medidas fizeram a diferença para que eu chegasse a esse resultado, como os exames rotineiros que detectaram a doença na fase inicial, principalmente a mamografia. Ela pode diagnosticar tumores, desde os mais baixos até os mais severos. No meu caso, foi detectado um carcinoma ductal, in situ, de baixo grau, porém multifocal. Ou seja, vários focos estavam espalhados pela mama. Nesse caso é recomendado a mastectomia para a retirada total desses focos, impedindo que eles perfurem posteriormente as paredes do ducto e invadam os tecidos vizinhos.

Perdi a mama, mas não perdi a vida – o que, provavelmente, aconteceria se eu não tivesse o hábito da mamografia rotineira. Quando o diagnóstico não trás a palavra multifocal, a possibilidade de cura se aproxima de 100% apenas com tratamentos; sem técnicas invasivas.

A grande pergunta que deixo é: o que podemos fazer para esclarecer as camadas mais necessitadas da sociedade brasileira? Acho que é lutar e fiscalizar as políticas de saúde no controle do uso da mamografia. Sabemos que as chances de cura aumentam de acordo com a precocidade do diagnóstico. Portanto, o conhecimento prévio faz a diferença para a cura.

É um direito das mulheres exigir o estabelecimento de políticas públicas que incentivem o diagnóstico precoce, pois 95% das mulheres com a doença podem ser curadas se puderem contar com profissionais qualificados e equipamentos especiais que garantam alta qualidade de imagem. Se temos deveres, como, por exemplo, pagar impostos, também temos direitos. E um deles é uma vida plena e saudável.


 

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